Lixomania


O almoço e a luta de classes.
maio 12, 2014, 11:15 am
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se eu tivesse um Ômega, seria este, neste estado

Falar que eu tive uma infância pobre seria um absurdo, mas falar que eu era desproporcionalmente mais pobre do que as outras crianças que estudavam comigo não é exagero nenhum. Isso porque mamãe economizou em brinquedos, mas não em escola cara. E escola cara é pra quem tem dinheiro para pagar escola cara além dos brinquedos, né? Daí que aos 9 anos de idade eu estava envolvido com essas crianças filhas de donos de rede de varejo, donos de indústria, donos da capa da revista Caras, donos do planeta Terra (a adjacências).

Apesar de estar fora do meu habitat, eu consegui fazer amiguinhos na época. Apesar dos Comandos em Ação, Transformers, He-Mans e essa galera em geral se aglomerarem mais em volta deles do que de mim.

Apesar desta opção de alocação de verbas, uma coisa eu tenho que reconhecer: até minha mãe começar a trabalhar, comer na minha casa era um espetáculo. Pratos diferentes todos os dias! Tudo delicioso. Minha mãe era uma remanescente da escola casa-de-vovó-aos-domingos. Fartura, abundância, grandes temperos, grandes ingredientes, grandes qualidades. Nada era ordinário na mesa do almoço e uma parte significativa dos meus caprichos e frescuras eram atendidos.

Bem, tudo isto para contar que, em algum momento do ano de 1989 chegou aquele momento em que algum dos meus amiguinhos, seus Comandos em Ação, seus Transformers e seus He-Mans finalmente fizeram o convite: venha dormir em casa para a gente brincar! Fiquei deslumbrado, claro.

Imagina só: casa gigante com piscina!
* Me dei bem! *

Video games importados que custavam um zilhão de cruzados novos!
* Fernando Collor: abra já os portos brasileiros! *

Pais fumando charutos cubanos e contando notas de 100 dólares enquanto as crianças brincam no tapete da sala!
* A riqueza emanando de todos os orifícios do meu corpo! *

E, claro: comidas novas, incríveis, com cores e cheiros originais que fazem seu corpo estremecer, feitas por chefs de cozinha internacional: cada um com o seu Personal Alex Atala aguardando novas ordens enquanto você come. Mas isso não foi bem assim. Chegada a esperada hora do almoço, uma mesa com arroz, feijão, bife e ovo. Achou pouco? Tem alface ali, ó! Sirva-se!

Vejam, eu não quero ser esnobe e está longe de mim desprezar arroz, feijão, bife e ovo (hoje é o que eu mais como com muito gosto sim!). Considerem o seguinte: primeiro que estou falando dos meus 9 anos de idade. Segundo que estou falando de marxismo, luta de classes e a opressão da classe burguesa sobre a classe média assalariada (eu no segundo grupo). A minha decepção foi tão grande com aquilo… como esse povo pode ter dinheiro para comprar um Ômega zero quilômetros e comer essas coisinhas chinfrins enquanto eu, que ando de Golzinho batedeira, invadido pelo Movimento das Baratas Sem Teto, todos os dias almoço, no mínimo, um bom prato de estrogonofe?

Talvez essa devesse ter sido uma importante lição para o jovem Klein. De que talvez eu não devesse ter me sentido tão oprimido e intimidado por estar no meio de gente com tanto dinheiro? Essa eu não aprendi não. De que dinheiro não compra tudo na vida? Não compra mesmo estrogonofe, ao que tudo indicava, mas isso não parece uma grande lição de vida. Eu me resumo a dizer que tirei o melhor que a situação podia me oferecer: pelo menos eu nadei em uma piscina no fim de semana.




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