Lixomania


O vovô em terras paulistas
abril 3, 2014, 6:45 pm
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vovô e vovó

Essa noite eu sonhei com o vovô.

Meus sonhos não têm enredo. Ou eles têm e eu não consigo lembrar. O que fica quando eu abro os olhos são sempre momentos curtos, umas poucas imagens e poucas coisas ditas. Neste eu via a minha família, como se os estivesse encontrando para algum evento (como o que terá logo mais, 70 anos de papai, talvez isto sido um dos motivadores o sonho) e, no meio, surpreendentemente estava o vovô. Nem sei contar quando o vi pela última vez… eu chutaria que 1994, talvez menos…

… e no sonho eu dizia: “VOVÔ!”

Ele respondia algo que eu não consigo lembrar. Se a última vez que eu o vi foi em 94, então a última vez que ele respondeu deve ter sido em 1991 ou até menos. Será que a voz do vovô no meu sonho era a mesma do vovô de 1991? Eu não sei, não lembro da voz do vovô muito bem.

No meu sonho ele tinha olhos azuis. Ele nunca teve olhos azuis. Os cabelinhos continuavam bem pretinhos e sem falhas como no dia que ele morreu com 84 anos de idade. O nariz largo como o que ele tinha, magrinho como ele era, com os óculos de armação preta e grossa que ele sempre usava. Um vovô fofinho, eu tive um desses. A última coisa que eu lembro do sonho foi de pensar algo como “que bom que ele está respondendo, ele está muito melhor!”. Aí eu acordei no meio da noite, como acordo todas as noites. O que não foi como todas as noites foi essa sensação volátil que mistura a alegria de ter visto o vovô com a tristeza de ter sido só um sonho.

Convivi tão pouco com o vovô e ele ter ido embora quando eu estava apenas entrando na minha adolescência é só um dos fatores. Vocês sabem que meus pais são gaúchos e vieram para São Paulo antes mesmo de eu nascer e que avós e tios são vivências específicas de infância e férias escolares. A saudade que sinto do vovô é quase teórica. Eu lembro do tamanho do carinho que ele tinha pela gente; lembro dos churrascos no galpão da sua casa, sempre naquela parte entre a construção maior onde a vovó tirava leite das vacas e a garagem onde o seu opala clássico, com santinhos presos por imãs no porta luvas e com o câmbio na coluna… e claro, da sua tradicional dose de cachaça (aquela mesma que ele dava para a minha irmã, numa fase em que era permitido dar cachaça para criança e achar graça)… tenho essas e outras lembranças, mas não sei descrever a personalidade do vovô. Criança não sabe descrever personalidades, não é uma das funções das crianças. Por isso que digo que é uma saudade teórica: ficam as boas lembranças misturadas à incerteza que a incapacidade de julgar estas lembranças carregam; uma saudade não só do que foi vivido, mas daquele mais que poderia ter sido também. Como crianças que perdem os pais cedo.

Tadinho. O vovô morreu de susto. Deve ter sido de saudade também, mas com certeza o que mudou ele foi o susto. O susto e o trauma de ter que conviver consigo com uma história que ninguém imagina que irá viver um dia. Nem eu.




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