Lixomania


Breve ensaio sobre a culpa
outubro 13, 2010, 12:13 pm
Filed under: Uncategorized

Fui dormir na casa de mamãe. No dia seguinte, quando acordei, ela não estava. Tinha ido trabalhar. Já eu, estava de folga. Mamãe não tem folga, ela tem fim de semana. Existem dois tipos de profissionais: os que tem folga e os que tem fim de semana. Essa deve ser a maneira que encontrei de superar o maior medo das adolescências, que é o de crescer exatamente igual aos seus pais. Eu não, eu sou diferente: eu tenho folga, não fim de semana; eles tem fim de semana, não folga.

Mamãe foi trabalhar e deixou almoço pronto. Eu visito meus pais (e isto inclui dormir uma noite na casa deles) uma vez por mês. Às vezes duas. Fui o último filho a sair de casa, o que quer dizer que fui eu quem apunhalei covardemente os meus pais. Sair da casa dos pais pode ser uma corrida: o último que sobrar, terá que apunhalá-los covardemente.  Fui eu. Pro céu já não vou mais (nem quando meus filhos me apunhalarem).

Quando durmo na casa de mamãe, ela levanta do túmulo e volta a ser mãe. Não existe cicatriz de faca e camisa manchada de sangue. Mamãe também não anda com os braços para frente, olhar vago e murmura por miolos como um zumbi ordinário. O que ela faz é deixar almoço pronto. O parágrafo anterior a este era sobre isto e eu desviei do assunto. Ela deixa arroz, feijão, purê de batatas e carne. Uma delícia. Eu como tudo direitinho. Quando volto para largar o prato na pia, descubro que também tinha salada. E sinto que, se mamãe chegar em casa e ver que a salada (alface e tomate!) estiverem intocados, se ela perceber que eu ignorei completamente uma parte insignificante (a salada!) de seus mimos, então a cicatriz ressurgirá, a camisa manchará de sangue e toda a minha apunhalada poderá vir à tona novamente.

Hoje eu comi a salada depois do prato quente. Isto é uma grande inversão de valores. (Inclusive no que tange a evitar apunhalá-la novamente)

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5 Comentários so far
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Ai que lindo!
Espero que meu filho faça isso por mim um dia depois de me apunhalar!!!

Comentário por Liliane

Comer salada depois do prato quente é a maior prova de amor que se pode dar nessa vida.

Comentário por Klein

Seis meses depois de eu sair de casa, minha mãe me chamou no meu quarto, fechou a porta, abriu o guarda-roupa cheio de brinquedos e lembranças da minha infancia e pré-adolescencia… Eu esperava que ela fizesse alguma reflexão sobre o tempo, sobre a infância, sobre a relação mãe-filho. Ela olhou em meus olhos e, mais direta do que um raio, proferiu suas palavras: “tira isso tudo daqui que eu quero montar uma academiazinha no teu quarto”.

Comentário por Tedy

Triste não é só isso. É o fato de que, se esta academia chegou mesmo a ser montada algum dia, com certeza jamais foi usada.

Comentário por Klein

Recusar a comida que a mamãe deixa pra você é sentar diretamente no colo do capiroto.

Comentário por jan




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