Lixomania


O que quero ser quando crescer?
setembro 21, 2010, 3:02 pm
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Isaac foi um colega de faculdade. Conheci ele quando achei que seria engenheiro de som em publicidade. Dentre as tantas coisas que já imaginei que seria. Já achei que seria super herói e que poderia voar e salvar o mundo. Já imaginei que seria o acertador da Mega Sena e continuo achando quando lembro de passar em uma lotérica. Já achei que seria lixeiro porque meu diploma parecia valer menos que o papel em que ele foi impresso. Todo mundo já imaginou que seria muita coisa quando crescer. Na época, o Isaac achava que seria produtor de vídeos em publicidade

O Isaac foi o cara que um dia, depois de nós dois formados, fez um blog e me mostrou. Eu achei legal. Parecia que blog poderia ser mais do que um diarinho estilo menina que imaginou que, quando crescesse, seria princesa da Disney. Fiquei com vontade de fazer um e fiz. O meu acabou não ficando muito diferente do das meninas que queriam ser princesas um dia. Afinal, este aqui é o diário de um príncipe germânico, bla bla bla.

Outro dia refiz contato, depois de anos (anos mesmo) e comecei a me queixar da vida para o Isaac. Reclamei de como não tenho controle sobre meus dias, que não participo de eventos sociais e que estou distante dos meus amigos e da minha casa. Que não há rotinas, não há planos, só há hotéis. Não consigo fazer exercícios, não consigo fazer um curso. Só durmo em hotéis, cada dia em uma cidade diferente. Não é nem a cada semana, é a cada dia mesmo. Ele tentou me consolar: “Klein, para de reclamar da vida… você tem um emprego, tem salário, tem uma mina (sic) e tudo isso. As pessoas admiram o que você faz. Pense-se como quem vive uma aventura. Pense que você é um pirata!”

Eu e o Isaac não viramos engenheiro de som e produtor de vídeo. Eu e o Isaac nos formamos em publicidade. Mas eu e o Isaac não somos publicitários: Isaac virou arquiteto e eu virei artista de circo, como vocês sabem. Mas o que o Isaac queria mesmo é que, quando crescessemos, nós dois fôssemos piratas.

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7 anos
setembro 15, 2010, 1:06 pm
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Juju subindo as escadas. Ela ajuda o vovô e a vovó a descarregar o carro das tralhas que a vovó usualmente traz para casa todos os dias. Leva tralha e traz tralha. Quem sabe, no fundo, a vocação da vovó era o ramo de transportes mas por uma destas ironias do destino acabou fazendo alguma outra coisa? Eu que espero no topo das escadas anuncio:

– Quem é que está fazendo aniversário hoje então?

– Sou eu!

Do alto de seus 7 anos de idade, Juju já entende que a vida também é feita disto: responder com alguma simpatia às perguntas mais idiotas e óbvias possíveis.

Já o vovô adotou outra estratégia: queria confundir a Juju. Ele dizia “então você está fazendo 6 anos de idade, né?”. Não foram 6, foram 7, como já expliquei. Juju insistia “é sete, vô”. Vovô insistia, insistia muito. Ela insistia de volta, numa quantia considerada igualmente muito. Eu entendo a indignação da Juju: vovô já deu aulas de matemática por aí e não é do tipo que parece muito difícil. Em última instância, a gente pode usar os dedos para fazer a contagem até chegar aos 10 anos. Use os dedos dos pés se quiser ir até os 20. Vovô ignora mãos e pés: “6 aninhos, não é Juju?”. Ela respondia mostrando uma vela grande e cor de rosa que seria colocada em cima do bolo com o formato de um tal número 7.

– Juju, acho que você vai ter que ensitar o vovô a ler – expliquei

Como todo dia de completar 7 anos de idade* a Juju teve um dia agitado. Balé pela manhã, festa na escola de tarde e, claro, casa da vovó à noite. Para ter certeza de que o número 7 seria marcante, a mamãe confiou sua máquina fotográfica para Juju, desde que ela não apagasse nada que já estava ali, é claro. Então ela fotografou o mundo como ele é aos 7 anos de idade: balé pela manhã, escola à tarde e, claro, casa da vovó à noite. Pedi para ver as fotos:

– Aqui é na escola (um punhado de crianças e uma professora em volta de um bolo, tudo dentro da uma sala de aula). Essa aqui do meu lado é o meu amigo Pedro.

(O amigo Pedro estava realmente próximo. Quase queixo no ombro. Com olhos no bolo: do alto de seus  7 anos de idade, Juju ainda não usa decote)

– Ele é só seu amigo ou é seu namorado?

– Mais ou menos namorado?

– Como assim, Juju?

– Ah, eu gosto dele.

Acho que eu lembro disso.  Talvez aos 7 anos de idade mesmo: por algum motivo eu dizia que gostava de umas meninas.  Gostava de uma por ano, acho. A gente não se apaixona, não se descabela, não passa noite em claro. Não ama. Não tem ereções (ou tem, mas não são assuntos relacionados).  A gente só gosta. Quando a gente é criança a gente brinca e eu acredito que brincadeiras nada mais são do que treinos para a vida adulta. Cachorros brincam de morder. Algumas crianças também mordem outras na infância e, quando crescem, continuam mordendo. Gostar provavelmente é brincar de se apaixonar, de se descabelar, passar a noite em claro, amar e ter ereções (que na vida adulta pode não ser um assunto relacionado).

– E ele, gosta de você Juju?

– Ele gosta. Mas acho que só como amigo.

Do alto de seus 7 anos de idade, Juju já descobriu o que é um amor não correspondido.

* – eu lembro da minha festa de 7 anos de idade. Mamãe tinha um livro ou revista de bolos, diversos bolos, foto de diversos bolos, de tudo quanto é tipo e jeito. Às vezes eu folheava essa revista e tinha um que me chamava muito a atenção: era um urso. Todo de chocolate, um urso marrom. Não do tipo que mataria um lenhador em uma floresta americana porque ele tinha um sorriso maroto na cara. A não ser que ele fosse um urso muito traiçoeiro: estaria sorrindo para ganhar sua confiança e ao virar as costas você seria devorado por ele. Em outras palavras: ursos de chocolate se alimentam de carne humana. Enfim: lembro que ficava namorando esse bolo e, um dia, perto do meu aniversário, tomei coragem de pedir para minha mãe fazê-lo. Nunca gostei de pedir para minha mãe fazer coisas para mim por mais que quisesse. Ela fez. Ficou um marrom mais claro que o da foto.  A festinha foi na saudosa casa do Butantã, uns poucos amiguinhos. De repente uns 7 amiguinhos, para combinar.




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Vida e Obra de Daniell Rezende

"Thou shalt not bore." - Billy Wilder

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