Lixomania


As brigas que perdi
setembro 23, 2014, 9:30 pm
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Eu me esforço. Eu me esforço tanto! Me esforço um tanto para sair dessa vida sem estar brigado com ninguém. Mas como é difícil. A culpa é das pessoas, claro, mas a culpa não é só das pessoas. Ou o que acontece é que eu também sou uma pessoa (supõe-se que eu seja: nem toda as coisas que com tanta criatividade criei para não fazer parte desse grupo podem me garantir essa exclusão).

Um monte de gente fez bobagem comigo mas, no geral, eu tenho coração bom e memória ruim. Uma hora eu lembro que já estive chateado com o fulano e que já briguei com a fulana, mas logo eu esqueço mesmo o que aconteceu e fica aquela raivinha tão fútil e despropositada que eu deixo pra lá. Nego vai lá, mata minha família, rouba meu dinheiro, mata meu gado e salga minhas terras. E faz tudo isso usando Crocs. “Por que você não gosta de fulano, Klein?”. Eu sei lá: eu lembro que não gosto, não lembro mais o que ou como aconteceu. Eu viro o lesado da história que não gosta das pessoas de graça, então convencionei dizer que “acho que meu santo não bate com o dele, não é nada de mais”.

Do outro lado eu fiz as minhas bobagens com as pessoas. Coisa que eu faço para pertencer àquele grupo chamado pessoas (mesmo achando má idéia, como já expliquei). Eu fico morrendo de culpa, né? Deito pra dormir de noite e fico mascando as pontas dos meus dedos em posição fetal por achar que mereço ir para o inferno. “Por que você fez esta bobagem com a fulana, Klein?” Por que eu sou uma pessoa, eu não penso antes de fazer bobagem, só depois. Daí a gente corre pra apagar o incêndio: pede desculpa, perdão, manda cartão bonito com frase inspiradora, se oferece como escravo sexual por uma semana sem custos e todas essas coisas que a gente aprende a fazer e coloca naquele protocolo de como agir em caso de arrependimento. São sempre os piores: eu lembro tão mais dos motivos para alguém ficar bravo comigo. Passam-se anos, séculos, décadas, encarnações e big bangs e eu ainda to pensando “nossa, não devia ter dito aquilo”.

Acho incrível que aquela tal de igreja católica e sua cultura de culpa eterna nunca me convenceram: eu tenho o perfil exato para fazer parte deste tipo de rebanho (ainda assim eu prefiri me unir ao grupo das pessoas… péssima escolha…)



Carma ruim.
junho 25, 2014, 2:21 pm
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Por outro lado, dando sequência ao meu post anterior, teve aquela lendária vez que eu quebrei o pé saindo do trabalho. Torci, não quebrei. Mas torci o suficiente para que, no dia seguinte, eu não conseguisse nem encostar meu pé no chão. Aí liguei para a então chefa e disse que precisava ir ao hospital. Ok. No hospital, botaram a tala, engessaram e me deram uma semana de gancho.

Vejam que, na época, eu morava nas roças de Carapicuíba. Morava com meu pai e minha mãe: ambos então integrantes das forças de trabalho brasileiras em funções diferentes de “minhas babás”. Ir para a cidade grande era de carro ou de carro. Ou você pegava um ônibus até a estrada, outro ônibus até a cidade e aí mais um ônibus até onde eu trabalhava (e isso não é uma piada: a logística era de três ônibus). Some aí fazer isso de muletas, com uma perna só. Depois faz tudo de novo para voltar. Ou, ainda, pode-se pagar um bilhão de reais em taxi intermunicipal, claro. Liguei para a então chefa e disse isso aí, que tinha uma tala de uma semana em meu pé esquerdo, aquele que a gente deve usar para regular a embreagem do carro e que, em algum lugar do manual do proprietário, deve especificar que não se faz isso com uma tala de gesso na perna e calcanhar. E que, por causa disso tudo, eu achava que não conseguiria ir para o trabalho por uma semana.

Eu nem vinha conduzindo nenhum projeto ou fazendo falta por aqueles tempos, eu estava com depressão e a nossa relação não era das melhores… ela perguntou se não tinha como eu dar um jeito, eu expliquei que não (como explicado anteriormente, eu não tinha babás à disposição). E ela disse aquilo lá que eu nunca vou esquecer:

- Acho que você tinha que dar um jeito… entendo como uma questão de postura.

(Não lembro se foi exatamente assim… mas eu lembro bem disso aí: ela questionou a minha postura profissional e essa palavra, “postura”, ela usou).

Fiquei muito puto. Muito mesmo. Encurtando a história, eu respondi firmemente que voltaria dali a uma semana e desliguei quase na cara dela. Na semana seguinte, a primeira coisa que fiz foi dizer que queria falar com ela. Quando ela sentou para falar comigo, dei o atestado médico na mão dela, disse que nunca em nenhum lugar que já tinha trabalhado antes eu tinha sido tão ofendido por alguém e que queria minha demissão. Ela agradeceu a minha sinceridade (???) e fomos cada um para um canto. Eu poderia dizer que ela fez cara de bunda, mas isso eu acho que ela já tinha, não tenho certeza. Não rolou aviso prévio, evidentemente.

Sei lá se isso marcou tanto a vida dela quanto marcou a minha. Marcou muito. Nunca tinha saído de um emprego brigado com alguém e acho que não imaginava isso acontecendo na minha vida. Eu ainda acho que estava com a razão: nada do que eu tivesse feito (que basicamente foi não corresponder o que ela esperava de mim na época como profissional) justificava ela ter falado assim comigo e tratado a questão desse jeito. Eu apenas me defendi e ainda fui legal de não ter procurado um jeito de por isso na justiça… ainda com esta convicção de que eu não estava errado, eu me sinto péssimo por carregar isso até hoje, no meio das duas ou três coisas ruins que fiz ou me aconteceram e que parecem me incomodar para sempre. Sei lá se pra ela isso foi tão pesado quanto foi para mim. Espero que não: eu não desejo nada de bom para ela, mas também não ganho nada desejando algo de ruim para ela. Como disse, foi cada um para o seu canto.



Pareidolia
junho 11, 2014, 12:43 pm
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Quem sabia das coisas era a Eulália. Chamavam ela de Lalá também, se eu não estiver enganado. Foi uma das primeiras chefes que eu tive na vida e uma das poucas representantes do anti coxinhismo corporativo com quem cruzei na minha vida profissional… quando eu trabalhei naquela instituição financeira que não era a vermelha, era a azul…

Me contaram que a Gisele Bündschen faz comerciais para a C&A até hoje por gratidão. Não sei se é verdade, mas já ouvi esta história algumas vezes. Gratidão porque a C&A teria sido a primeira marca a investir nela como modelo, quando ela ainda achava que era magrela porque passava fome, e não porque porque simplesmente era uma pessoa magrela. Aí ela ficou famosa, rica, foi morar em Nova York, namorou o Leonardo DiCaprio e resolveram que, para ela, magrela significava gostosa (não que eu não ache, meu ponto aqui não é este!). Então, em gratidão à C&A, que a tornou rica e gostosa, hoje ela trabalha para os caras por um cachê reduzido.

Contei essa historinha toda para fazer a seguinte pergunta: para que caras?

Não sei se o cara que deu a oportunidade para ela trabalha na C&A até hoje. Vamos assumir que não, porque isso é muito improvável. E eu entenderia uma gratidão a um cara que trabalha lá e deu a oportunidade a ela mas… a uma empresa?

E aí, o que a Eulália me disse uma vez, não lembro por que motivo exatamente mas com certeza para aliviar o meu remorso de estar fazendo algo que “prejudicaria” o sr. dono da grande corporação internacional de cartões de crédito com cor azul, a frase: “empresa não tem coração, tem CNPJ”.

É verdade. Em uma empresa muito grande é assim. Não é como trabalhar na padoca do seu Zé… porque o seu Zé é gente boa, te deixa levar uma pizza congelada para casa de vez em quando. No outro caso, o dessas empresas estilo grande corporação internacional de cartões de crédito com cor azul, é pura pareidolia da nossa parte. Não é real. E eu sigo lembrando da Lalá há todos esses 14 anos que se passaram.



O almoço e a luta de classes.
maio 12, 2014, 11:15 am
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se eu tivesse um Ômega, seria este, neste estado

Falar que eu tive uma infância pobre seria um absurdo, mas falar que eu era desproporcionalmente mais pobre do que as outras crianças que estudavam comigo não é exagero nenhum. Isso porque mamãe economizou em brinquedos, mas não em escola cara. E escola cara é pra quem tem dinheiro para pagar escola cara além dos brinquedos, né? Daí que aos 9 anos de idade eu estava envolvido com essas crianças filhas de donos de rede de varejo, donos de indústria, donos da capa da revista Caras, donos do planeta Terra (a adjacências).

Apesar de estar fora do meu habitat, eu consegui fazer amiguinhos na época. Apesar dos Comandos em Ação, Transformers, He-Mans e essa galera em geral se aglomerarem mais em volta deles do que de mim.

Apesar desta opção de alocação de verbas, uma coisa eu tenho que reconhecer: até minha mãe começar a trabalhar, comer na minha casa era um espetáculo. Pratos diferentes todos os dias! Tudo delicioso. Minha mãe era uma remanescente da escola casa-de-vovó-aos-domingos. Fartura, abundância, grandes temperos, grandes ingredientes, grandes qualidades. Nada era ordinário na mesa do almoço e uma parte significativa dos meus caprichos e frescuras eram atendidos.

Bem, tudo isto para contar que, em algum momento do ano de 1989 chegou aquele momento em que algum dos meus amiguinhos, seus Comandos em Ação, seus Transformers e seus He-Mans finalmente fizeram o convite: venha dormir em casa para a gente brincar! Fiquei deslumbrado, claro.

Imagina só: casa gigante com piscina!
* Me dei bem! *

Video games importados que custavam um zilhão de cruzados novos!
* Fernando Collor: abra já os portos brasileiros! *

Pais fumando charutos cubanos e contando notas de 100 dólares enquanto as crianças brincam no tapete da sala!
* A riqueza emanando de todos os orifícios do meu corpo! *

E, claro: comidas novas, incríveis, com cores e cheiros originais que fazem seu corpo estremecer, feitas por chefs de cozinha internacional: cada um com o seu Personal Alex Atala aguardando novas ordens enquanto você come. Mas isso não foi bem assim. Chegada a esperada hora do almoço, uma mesa com arroz, feijão, bife e ovo. Achou pouco? Tem alface ali, ó! Sirva-se!

Vejam, eu não quero ser esnobe e está longe de mim desprezar arroz, feijão, bife e ovo (hoje é o que eu mais como com muito gosto sim!). Considerem o seguinte: primeiro que estou falando dos meus 9 anos de idade. Segundo que estou falando de marxismo, luta de classes e a opressão da classe burguesa sobre a classe média assalariada (eu no segundo grupo). A minha decepção foi tão grande com aquilo… como esse povo pode ter dinheiro para comprar um Ômega zero quilômetros e comer essas coisinhas chinfrins enquanto eu, que ando de Golzinho batedeira, invadido pelo Movimento das Baratas Sem Teto, todos os dias almoço, no mínimo, um bom prato de estrogonofe?

Talvez essa devesse ter sido uma importante lição para o jovem Klein. De que talvez eu não devesse ter me sentido tão oprimido e intimidado por estar no meio de gente com tanto dinheiro? Essa eu não aprendi não. De que dinheiro não compra tudo na vida? Não compra mesmo estrogonofe, ao que tudo indicava, mas isso não parece uma grande lição de vida. Eu me resumo a dizer que tirei o melhor que a situação podia me oferecer: pelo menos eu nadei em uma piscina no fim de semana.



O vovô em terras paulistas
abril 3, 2014, 6:45 pm
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vovô e vovó

Essa noite eu sonhei com o vovô.

Meus sonhos não têm enredo. Ou eles têm e eu não consigo lembrar. O que fica quando eu abro os olhos são sempre momentos curtos, umas poucas imagens e poucas coisas ditas. Neste eu via a minha família, como se os estivesse encontrando para algum evento (como o que terá logo mais, 70 anos de papai, talvez isto sido um dos motivadores o sonho) e, no meio, surpreendentemente estava o vovô. Nem sei contar quando o vi pela última vez… eu chutaria que 1994, talvez menos…

… e no sonho eu dizia: “VOVÔ!”

Ele respondia algo que eu não consigo lembrar. Se a última vez que eu o vi foi em 94, então a última vez que ele respondeu deve ter sido em 1991 ou até menos. Será que a voz do vovô no meu sonho era a mesma do vovô de 1991? Eu não sei, não lembro da voz do vovô muito bem.

No meu sonho ele tinha olhos azuis. Ele nunca teve olhos azuis. Os cabelinhos continuavam bem pretinhos e sem falhas como no dia que ele morreu com 84 anos de idade. O nariz largo como o que ele tinha, magrinho como ele era, com os óculos de armação preta e grossa que ele sempre usava. Um vovô fofinho, eu tive um desses. A última coisa que eu lembro do sonho foi de pensar algo como “que bom que ele está respondendo, ele está muito melhor!”. Aí eu acordei no meio da noite, como acordo todas as noites. O que não foi como todas as noites foi essa sensação volátil que mistura a alegria de ter visto o vovô com a tristeza de ter sido só um sonho.

Convivi tão pouco com o vovô e ele ter ido embora quando eu estava apenas entrando na minha adolescência é só um dos fatores. Vocês sabem que meus pais são gaúchos e vieram para São Paulo antes mesmo de eu nascer e que avós e tios são vivências específicas de infância e férias escolares. A saudade que sinto do vovô é quase teórica. Eu lembro do tamanho do carinho que ele tinha pela gente; lembro dos churrascos no galpão da sua casa, sempre naquela parte entre a construção maior onde a vovó tirava leite das vacas e a garagem onde o seu opala clássico, com santinhos presos por imãs no porta luvas e com o câmbio na coluna… e claro, da sua tradicional dose de cachaça (aquela mesma que ele dava para a minha irmã, numa fase em que era permitido dar cachaça para criança e achar graça)… tenho essas e outras lembranças, mas não sei descrever a personalidade do vovô. Criança não sabe descrever personalidades, não é uma das funções das crianças. Por isso que digo que é uma saudade teórica: ficam as boas lembranças misturadas à incerteza que a incapacidade de julgar estas lembranças carregam; uma saudade não só do que foi vivido, mas daquele mais que poderia ter sido também. Como crianças que perdem os pais cedo.

Tadinho. O vovô morreu de susto. Deve ter sido de saudade também, mas com certeza o que mudou ele foi o susto. O susto e o trauma de ter que conviver consigo com uma história que ninguém imagina que irá viver um dia. Nem eu.



Sigmund Freud, do signo de Touro
março 9, 2014, 10:33 pm
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Eu resolvi começar a considerar as pessoas pelos seus signos. Nada de novo na humanidade. Não é nada de novo nem para mim: acho que todo mundo já considerou, ainda que secretamente, ainda que só por cinco minutos, ainda que com aquela desculpa do “eu estava trocando os canais da TV e, meio sem querer, passei pelo Video Show e vi isso, mas não é do tipo que eu assisto ao Video Show”. Enfim: nenhuma novidade até aqui e isso deve passar logo.

O problema é quando eu resolvo misturar isto com conhecimentos de psicologia de boteco.

Eu fico pensando coisas do tipo: “fulaninha é do signo de virgem. Seu pai, também é do signo de virgem… portanto, ela passará a vida buscando em homens muito iguais a si própria porque seu modelo de masculinidade para a concepção da família é do seu próprio signo: no fundo, sua vida será uma longa jornada de auto aceitação”.

Até semana que vem eu já desisti dessa coisa de signos, eu espero.



Dream a little dream of me
fevereiro 25, 2014, 7:06 am
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A pessoa tem mais de 30 anos de idade. Emprego estável, com uma renda excelente. E o papo dele para as meninas ainda é o “ontem eu sonhei com você!”.

Sério.

(Aí outro dia vi uma menina dizendo “o fulano deve dormir umas 20 horas por dia porque ele sonha com todo mundo”. Tóim! Fiquei com vontade de perguntar se as 4 horas que fica acordado ele dedica somente a correr atrás das meninas com quem sonhou para contá-las sobre o sonho. Foi só vontade mesmo).




Blowg

não contém glútem

I misbehave

não contém glútem

La gent normal

(coses que fa la gent normal)

Vida e Obra de Daniell Rezende

"Thou shalt not bore." - Billy Wilder

tantos clichês

não contém glútem

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