Lixomania


Tempos de crise e regate de valores – pt1(?)
novembro 4, 2011, 11:16 am
Filed under: Uncategorized

Acho que magoa a mamãe quando eu durmo na casa dela e não como toda a comida que ela deixa. Mamães são assim, querem que a gente coma tudo. Elas querem ver a gente gordinho até o Natal. O mundo também quer a gente gordinho até o Natal, a diferença é que o mundo o quer para ter o que assar para a ceia.

Aí a mamãe faz isso aí: eu durmo aqui na casa dela e ela deixa um mundo de alimentos para a cria dela. Já devo ter falado sobre tudo isto aqui: ela sai para o trabalho e deixa panelas e potes etiquetados para eu ter certeza de que meus olhos não me enganam. Eu vejo um grande frango assado e, em cima, a etiqueta “frango”. Se eu sei ler, jamais acharei que o que estou vendo é uma manga: mamãe não mentiria no bilhete que diz “frango”.

Se você aí acha que mamãe insulta a minha inteligência, se ela pensa que eu não sou capaz de ter certeza de que um frango é um frango, você está redondamente enganado. Nem tudo na casa da mamãe é o que parece ser. Por exemplo: ao lado do frango, devidamente classificado e identificado, havia uma panela cheia de arroz. O arroz estava misturado com vagem e pimentão. Uma péssima mamãe enganaria seu filho com a etiqueta “arroz com vagem e pimentão” ou, até mesmo, apenas “arroz”. Não era isto o que tinha lá! A etiqueta dizia “arroz colorido”.

Ai de mim se não comer o que ela deixou para mim. Um grande desafio para alguém que come pouco: comer não basta, eu tenho que deixar rastros de fartura. Desenvolvi métodos para isto. O arroz colorido, por exemplo: se eu simplesmente servir a quantidade pequena de arroz que estou acostumado a comer, ela não vai notar a diferença. Quando eu morava com ela, ela chegava no fim do dia e perguntava “ué, você não comeu a comida que deixei?” Então a técnica é tirar o arroz de um dos cantos da panela, até o fundo dela aparecer. Depois a panela deve permanecer fechada, mas com a colher de servir, que não estava lá quando cheguei, descuidadamente largada dentro da panela. Fingir que esqueci de lavar a louça e deixar pratos e talheres sujos (de “carne com molho”) dentro da pia também ajudam muito.

Não posso magoar muito a mamãe. Já passei a adolescência toda e parte da vida adulta fazendo isso. Não é algo que posso jurar conseguir, mas é algo que tento tanto quanto eu posso. Por um mundo com um arroz menos preto e branco.



Jaqueta social
julho 27, 2011, 7:23 am
Filed under: Uncategorized

Eu até quis comprar aquela jaqueta. Era preta, cheia de estilo. Queria que desse com aquela pinta de motoqueiro chique de São Paulo, aqueles que geralmente não tem moto nenhuma, trabalham num escritório que faz qualquer coisa que não agrega valor ao mundo, frequentam bares da Vila Olímpia e tem uma namorada loira com quem fala o dia inteiro, mas não existe qualquer tipo de assimilação de informação de uma ou outra parte. Resumindo: a jaqueta tinha potencial para me inserir na sociedade de forma a parecer invisível. O problema era que a jaqueta só vinha em dois tamanhos: mangas sem mãos ou gay por colação no corpo e definição de cintura (a sutil diferença entre “dar uma pinta” e “dar uma de pintosa”). Pareceram suficientes para me sentir inserido à sociedade, mas jamais para parecer invisível, veja você.



Boa mesmo é a Televisa
julho 17, 2011, 7:12 pm
Filed under: Uncategorized

Pode ser um efeito do namoro. Sentar-se à cozinha da sogra para bater papo, o televisor da cozinha e aquelas imagens e histórias acontecendo, um canudinho lentamente saindo do aparelho, entrando pelo meu ouvido para então chupar meu cérebro. Porque na minha casa isto não aconteceria. Pode ser só uma desculpa. O que sei é que eu estou mais ou menos assistindo novela. A das 8. Tem a das 11 que vale só pela música de abertura. Foi Miss Francis quem observou o lirismo:

Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir urgente ao dentista

(Mas, hein?)

De qualquer forma, a questão aqui é outra. Eu queria só explicar que não consigo mais acompanhar nomes de personagens depois de tantas novelas, filmes, livros, músicas, clientes, atendentes de supermercado e vendedores de pipoca na porta da escola. Eu nunca guardo nome de personagens. Isto é um inferno! Especialmente se a cena for algo como duas pessoas falando sobre uma terceira que não está presente fisicamente na vcena. E aí, para tentar entender melho o que estou assistindo (já que peguei a novela pela metade), faço comentários do tipo “ah, isto está acontecendo porque a Camila Pitanga namorava o Antonio Fagundes?” E assim por diante. O que me deu a seguinte idéia: o dia que eu escrever uma novela (oh, esse dia há de chegar!), minhas personagens terão os nomes dos atores que as interpretam. Porque eu sofro com a meu retardo para ver novelas e acho que uma novela tem que ser retardado-friendly. Tipo a música de abertura da novela das 11.



Cães leprosos e bonecas para meninos
maio 20, 2011, 1:12 am
Filed under: Uncategorized

Bem, sobre meu último post foi isso aí que a Ju Sampaio, mãe profissional, comentou. Claro que ela tem razão: os brinquedos como são colocados pela indústria impõem uma ideologia sobre a nossa sociedade, direciona nossas crenças e podem causar traumas e conflitos. Uma bola de neve porque a próxima geração de criadores de brinquedos terá crescido sobre a influência da atual e perpetuará este conceito.

Só faço um adendo: meninos também brincam de bonecas.

Quando inventaram o boneco Falcon, a idéia era fazer uma boneca para meninos. Não deu certo comercialmente e o produto foi adaptado. Virou o Comandos em Ação, que ilustrou uma parte significativa da minha infância.

Bem, Comandos em Ação não era um brinquedo de ninar, trocar fralda, dar de mamar e, principalmente, segurar no colo, o meu grande problema. No entanto, eu sabia, com perícia, botar uma baioneta na mão dos meus bonecos. Expliquei tudo isto para dizer que, ok, eu não sei segurar um bebê. Mas posso garantir que caso sejamos vítimas de uma revolução, invasão estrangeira ou seja declarada a 3a Guerra Mundial, eu serei o primeiro a conseguir colocar uma baioneta na mão do meu bebê, e não miss Francis!



Sobre cães leprosos
maio 18, 2011, 1:19 pm
Filed under: Uncategorized

O que eu explicava à miss Francis é que de vez em quando a gente ve piadas em filmes, seriados e afins sobre gente que não sabe segurar um bebê. Eu lembro especificamente de uma cena de Friends em que a Rachel segurava o Ben como quem tem um cachorro leproso nas mãos e a piada era toda sobre ela não saber pegar uma criança no colo. Tudo isto para explicar que não tenho na minha memória a cena de um bebê no meu colo. Eu tenho medo de segurar bebês. Tenho medo de ser o motivo da piada, tenho medo de alguém querer me explicar que aquilo não é um tijolo, tenho medo de deixá-lo cair e quebrar o tijolo ou do bebê repentinamente aprender a falar debutar no mundo da comunicação com “ei! eu não sou um cachorro leproso!”

E quando tivermos nossos filhos?, perguntaria miss Francis, naturalmente.

Bom, eu teria que praticar. Expliquei a ela que ela teria que me deixar sozinho com o bebê. Uma semana, eu acho. Daria uma viagem para miss Francis, para bem longe. Para Dubai, se eu tiver dinheiro. Para Águas de Lindóia, se o mundo continuar seguindo sua ordem natural. Depois ligaria para o trabalho com alguma desculpa para passar a semana em casa. Alguma das boas, do tipo “meu cachorro está com lepra”. Colocaria o berço em frente a um espelho com o bebê, eu atrás disso tudo. E começaria o exercício: pega bebê, devolve bebê, pega bebê, devolve bebê. 3 séries de 20, come uma banana. Pega bebê, devolve bebê. Etc. Tudo em nome da dignidade e da paternidade.



08 – 11- 14 -30 – 36- 38
maio 7, 2011, 11:33 pm
Filed under: Uncategorized

08, 11, 14, 30, 36, 38. Que tipo de pessoa escolheria entre 1 e 60, números que não chegam sequer à quarta dezena? Estes foram os números sorteados da Mega-Sena neste sábado e alguém ganhou quase 35 milhões porque apostou nestes números. O tipo de pessoa que não passaria de 40 ao escolher 6 números de 1 a 60 é o tipo de pessoa que fica milionária numa tarde de sábado, não eu. É essa a resposta a esta pergunta.



Pensando Chico Xavier
março 28, 2011, 10:28 pm
Filed under: Uncategorized

Claro que eu gostaria que morrendo eu fosse para algum lugar. Todo mundo quer. Não estou falando de acreditar que vai, estou falando de querer. A ironia é que nada pode ser tão este mundo, esta vida ou este qualquer coisa do que querer isso já que, afinal, sobrevivência, é um instinto, não é algo racional. Todo animal tem instinto de sobrevivência. E o suicida não quer morrer, ele só quer matar outra coisa que está ali dentro dele. Aí a continuidade foi aquela coisa que a gente inventou porque a idéia de morrer causa tanta repulsa que a gente prefere ignorar qualquer racionalidade a fim de conviver com a idéia de que a gente é perecível (ainda que alguns digam conviver). Acho que a partir disso vieram as religiões: umas falam em céu e inferno, outras falam em planos e em cumprir missões aqui. Tudo para dar sentido ao que a gente está fazendo aqui, garantir que isto não é à toa, e que é um trabalho para a gente, afinal, não morrer de verdade. Só de brincadeirinha. Pra onde a gente vai depois? Sei lá. A gente fica pensando que se for uma boa pessoa, vai para um lugar melhor, mas e se aqui já for o lugar melhor e a gente só vai para o lugar melhor por um tempo determinado? O mundo é cheio de coisas horrendas e bla bla bla? É, mas isso não quer dizer que ele não seja o lugar melhor, é algo relativo. (Essa possibilidade ninguém cogita também porque aí, apesar da gente não morrer quando morre, torna a vida e a morte sem sentido do mesmo jeito).



Fisioterapia e mais dúvidas sobre o número 3
março 25, 2011, 10:30 am
Filed under: Uncategorized


Na primeira vez que fiz fisioterapia, me apaixonei platonicamente pela fisioterapeuta. Carismática, linda e noiva. “Agora vamos alongar o seu antebraço”: meu coração se alongava. “Este equipamento irá estimular eletricamente este grupo muscular para fortalecê-lo”: meu coração se estimulava e fortalecia. “Segure esta bolinha de borracha com a mão e aperte-a com força”: meu coração se contraía inteiro, como que apertando uma bolinha. Claro que não deu em nada, não se conquista uma mulher apertando bolinhas de borracha na sua frente.

Na segunda vez que fiz fisioterapia foi numa clínica com várias fisioterapeutas. Certo dia eu estava com o mesmo aparelho de estimulação elétrica, deitado em uma maca fechada com cortinas, quando ouvi um burburinho e umas risadinhas. De repente entra uma fisioterapeuta toda risonha dizendo que tinha uma outra fisioterapeuta que queria me conhecer, se para mim tinha algum problema. Não, problema nenhum. Sai a fisioterapeuta risonha, entra a fisioterapeuta querendo enterrar a própria cabeça no chão. Perguntou sobre a minha lesão e minha reuperação. Expliquei. Conversamos por mais 5 minutos sobre aleatoriedades e ela foi embora. Claro que não deu em nada, não se conquista conquista um homem perguntando sobre sua lesão (especialmente se ela foi algo tão idiota quanto tropeçar em um degrau saindo do caixa eletrônico).

Dentro de mais alguns instantes, estarei seguindo para a terceira fisioterapia da minha vida. Não estou procurando por romance, evidentemente. Desta vez, para variar um pouco, eu gostaria de simplesmente recuperar a minha perna e voltar a caminhar normalmente. Minha idéia é voltar pra cá e dizer: “Claro que a fisioterapia deu em algo, não se conquista o mundo de muletas”, ou coisa assim



A enésima vez que quebrei minha perna
março 16, 2011, 8:29 pm
Filed under: Uncategorized

A primeira vez que quebrei meu pé*, eu passava por um momento difícil. Tinha conseguido um emprego com que sempre sonhara, mas tinha percebido que algo estava errado. No entando não sabia o que era esse algo: se tinha me enganado escolhendo o tipo de trabalho errado no lugar certo ou se escolhendo o tipo de trabalho certo no lugar errado. Na verdade, eu não entendia essas duas coisas: uma grande depressão me tomou, tomava remédio e fazia piada. No entanto não era a minha intenção fazer nada precipitado com relação à minha vida profissional, queria voltar a ter fé na vida e fazer aquilo dar certo, prosperar naquilo que entendia ser o que sempre quis pra mim. Não foi possível porque o dia que liguei para minha chefe dizendo que tinha me acidentado e que não teria condições de trabalhar por uma semana, já que morava longe e não tinha como dirigir, ela disse que não achava aquilo certo, que eu tinha que dar algum jeito de ir ao trabalho. E dessas aspas acho que vou lembrar pro resto da minha vida: “é uma questão de conduta”. Não sei o que significava conduta pra ela, sei que alguns dias depois, quando sentei com ela a uma mesa e disse que estava me demitindo porque nunca tinha me sentido tão ofendido em um trabalho, ela me explicou de que conduta ela estava falando, mas eu fiz questão de não guardar a informação.

Já a segunda vez que quebrei meu pé, eu… continuava passando por um momento difícil, apesar do momento ter mudado. Tinha conseguido um emprego com o qual nunca sonhara, mas tinha percebido que precisava dele mesmo que algo estivesse errado. Eu sabia o que era esse algo: o emprego errado no lugar errado, mas não foi engano nenhum. Ou, se for para dizer que foi sim um engano, foi então o único engano que tive para me apegar: não sabia o que fazer da vida profissionalmente ou pessoalmente. Passei um ano inteiro no maior limbo da minha vida. Não estava deprimido enquanto doença mas talvez estivesse enquanto pessoa. Simplesmente me conformei que não precisava esperar nada da minha vida. Quando lembro de 2006, eu penso que foi um ano em que absolutamente nada aconteceu comigo. Nem de bom e nem de ruim. Quando liguei para minha chefe dizendo que tinha me acidentado e que não teria condições de trabalhar por um mês, já que morava longe e não tinha como dirigir, ela não me julgou de forma alguma, mas disse que não podia ficar sem mim por um mês. Não era a minha intenção fazer nada precipitado com relação à minha vida profissional, queria voltar a ter fé na vida e fazer aquilo dar certo. E talvez essa tenha sido a evolução entre estes dois parágrafos: a oportunidade de inverter a ordem das últimas duas frases. A minha conduta foi negociar e chegamos ao acordo de que eu trabalharia três vezes por semana e os outros dois dias poderia ficar em casa. Mais tarde eu sairia deste emprego por algo que chamaria de “causas naturais”, sem mágoas. As aspas que guardei foi da minha chefe me elogiando por ter sido um bom profissional e me desejando sorte na nova carreira profissional que estava tentando.

Por fim, a terceira vez que quebrei meu pé… não acho que é um momento difícil. Tenho um emprego com o qual sonhara desde que mudei de carreira profissional. Acho que o melhor emprego que existe na minha área. Ele só exige de mim um outro estilo de vida que foi adequado para mim nos últimos 3 anos, mas não é mais. Agora não é o momento que mudou, é a vida. Não existe qualquer tipo de depressão. Talvez ansiedade, talvez medo. Existe até otimismo em certos momentos. Eu não sei por que é que toda vez que preciso dar um passo diferente na minha profissão, a vida insiste que devo dar o primeiro passo de muletas. As pessoas espiritualizadas e místicas gostam de dizer que há significado nisso e que nada é por acaso. Minha terapeuta, quando eu tinha uma (isso há um parágrafo atrás) deu a entender que meu subconsciente é que faz isso comigo. Forças místicas, subconsciente ou acaso, eu não tenho idéia do significado disso desta vez, se tem alguma coisa para eu aprender. Desta vez não há acordo: na minha profissão atual, não se trabalha MESMO sem uma perna: me mandaram passar 3 meses em casa sem aspas para eu pensar.

* – Na verdade, a primeira vez que quebrei o pé, ele não foi efetivamente quebrado. Foi uma luxação.



A nova maneira de ver o mundo
março 5, 2011, 10:36 am
Filed under: Uncategorized

As pessoas pedem para que, enquanto me recupero de uma perna quebrada, eu volte a escrever neste blog. Talvez elas acreditem que neste período eu passe a ver o mundo de uma nova maneira. Talvez elas acreditem que se possa ver o mundo não com os olhos, mas com as pernas. E aí fica a pergunta: como é o mundo visto da perspectiva de não duas, mas de apenas uma perna? Não sei, mas se minha perna ver algo interessante, eu venho aqui para contar.




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.