Toda vez que vejo dois ou mais surdos-mudos conversando na rua, eu me encolho. Olho para o outro lado, faço cara de quem está distante, pensando na vida, resolvendo os problemas do mundo, buscando mentalmente a cura para o câncer. Porque eu sempre acho que se eles sequer suspeitarem de que eu os notei conversando, eles vão falar de mim. Dedo indicador da mão direita, mindinho da mão esquerda. Este fazendo uma meia lua no ar, aquele desenhando um Z não sem antes uma indicação a 225 graus do polo magnético terrestre. Eles falando um para o outro: “aquele loirinho ali olhando para a gente, se ele olhar de novo, a gente quebra a cara dele – mesmo que ele tenha este grande pedaço de rúcula presa entre os dentes”. E eu lá, inocente, procurando mentalmente a cura para o câncer.
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O bom frilho à casa torna. Ou é o que dizem, eu nunca dizia isso até ontem. A vizinhança mudou de 10 anos para cá, tudo está melhor, mais moderno, mais desenvolvido. Os lugares se desenvolvem e descaracterizam a nostalgia. A video locadora, a primeira do bairro, pioneira de tudo (a única com filmes europeus, asiáticos, iranianos e de outros povos que gostam de contar histórias sobre crianças que atravessam uma cidade inteira à pé só por atravessar a cidade inteira a pé e cuja moral da história é: “crianças podem atravessar cidades inteiras a pé”) viu a avenida à sua frente ficar limpa, ganhar árvores e radares para controlar os ânimos da vizinhança. Tudo perfeito, exceto por não haver mais uma vídeo locadora ali (só um imóvel fechado cujo letreiro escrito “Century Video” só eu ainda vejo naquele lugar).
Eu nunca fui muito apegado à minha infância. Conheço gente que lembra da infância com o maior carinho do mundo, com saudade e com uma inconformidade com a vida adulta. Quando eu era criança, pensava que quando crescesse gostaria de ser adulto. Ter o meu próprio dinheiro, não ter que pedi-lo para meus pais dizendo que era para comprar material de escola mas, na verdade, querendo deixar mais espessa aquela camada de revistas pornográficas entre meu colchão e minha cama (ah, como era difícil ser criança antes da internet…). Mas o caso é que, apesar de nunca ter sido uma criança muito convicta do exercício da infância, ainda assim eu gostaria de conseguir vê-la bem do jeito que ela era. Hoje, passando por ali, só deu pra ver uma lembrança distorcida.
Arquivado em: Uncategorized | Tags: Celso Russomanno, eleições 2012, José Serra
As pessoas são assim, né? Você trabalha o dia inteiro. Você viaja o dia inteiro. E eu faço as duas coisas. Ao mesmo tempo. Daí, quando eu termino de fazer estas duas coisas ao mesmo tempo (isto sem considerar as outras para as quais eu nem me importo mais de fazer ao mesmo tempo, como respirar, bater o coração, praticar o peristaltismo), o mundo te confirma que Celso Russomanno não está no segundo turno das eleições paulistanas. Mesmo que desfalcado de sua presença nas urnas. Hooray! Daí estas outras pessoas que praticaram mais o peristaltismo resolvem colocar o fim desta ação no mundo, dizendo que preferiam Celso Russomanno prefeito a José Serra. Você responde com “você acha mesmo que alguém que se fez na vida e na política fazendo sensacionalismo em cima da morte da própria esposa, só para começar, é alguém ético o bastante para governar a sua cidade”. Cri-cri-cri, faz a cara de nossos jovens grilos. Eu explico do que estou falando. E eles rebatem “ah, isso não é sensacionalismo, isto é falar sobre as deficiências do sistema de saúde”. Respondi fazendo a minha famosa cara de peristaltismo.
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Envelhecer não é sobre amadurecer de verdade. A gente não é deixar de se torturar com as questões existenciais e conceituais da adolescência. A única coisa que a gente faz é desistir de falar delas porque não queremos mais parecer adolescentes. Mas, no fundo, ta tudo lá intacto, do mesmo jeito.
(Eu me deprimo tanto quando penso nisso).
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Se eu sinto saudade de escrever? Sinto sim! Muita saudade. E ultimamente parece que mais ainda. Vira e mexe eu me imagino assim, escrevendo. Como quem está escrevendo um tipo de redenção para si próprio.
O problema é que acho que eu estava sempre ofendendo alguém. Uma vez por mês eu ofendia alguém e aí tinha toda a discussão do “por-que-você-falou-aquilo-de-mim” com pitadas de “você-não-é-mais-meu-amigo” e requintes de “vou-juntar-minhas-coisas-e-voltar-para-a-casa-da-mamãe”. Drama na internet. Aí uma vez eu tentei não falar mal de ninguém, só usar alguém. Usar alguém para ilustrar que eu era louco. E aí veio o “por-que-você-disse-que-eu-sou-louca”. Ela não entendeu nada e de repente eu não era mais louco sozinho: nós dois éramos loucos. Drama no manicômio.
Era tanto drama que a vida ficava interessante… só que eu nunca escrevi porque achava a vida interessante. Eu gostava de pensar, na verdade, que se existia alguma arte nisso, ela era apenas a de fazer a minha vida estupidamente chata não parecer muito chata. Juro, era só isso. Eu era só um menino mimado vivendo uma vida ordinária.
Vai ver então é por isso que eu penso que eu deveria voltar a escrever: a vida pode estar lentamente voltando aos altos níveis de chatice de outrora. Drama na crise dos trinta.
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Acho que magoa a mamãe quando eu durmo na casa dela e não como toda a comida que ela deixa. Mamães são assim, querem que a gente coma tudo. Elas querem ver a gente gordinho até o Natal. O mundo também quer a gente gordinho até o Natal, a diferença é que o mundo o quer para ter o que assar para a ceia.
Aí a mamãe faz isso aí: eu durmo aqui na casa dela e ela deixa um mundo de alimentos para a cria dela. Já devo ter falado sobre tudo isto aqui: ela sai para o trabalho e deixa panelas e potes etiquetados para eu ter certeza de que meus olhos não me enganam. Eu vejo um grande frango assado e, em cima, a etiqueta “frango”. Se eu sei ler, jamais acharei que o que estou vendo é uma manga: mamãe não mentiria no bilhete que diz “frango”.
Se você aí acha que mamãe insulta a minha inteligência, se ela pensa que eu não sou capaz de ter certeza de que um frango é um frango, você está redondamente enganado. Nem tudo na casa da mamãe é o que parece ser. Por exemplo: ao lado do frango, devidamente classificado e identificado, havia uma panela cheia de arroz. O arroz estava misturado com vagem e pimentão. Uma péssima mamãe enganaria seu filho com a etiqueta “arroz com vagem e pimentão” ou, até mesmo, apenas “arroz”. Não era isto o que tinha lá! A etiqueta dizia “arroz colorido”.
Ai de mim se não comer o que ela deixou para mim. Um grande desafio para alguém que come pouco: comer não basta, eu tenho que deixar rastros de fartura. Desenvolvi métodos para isto. O arroz colorido, por exemplo: se eu simplesmente servir a quantidade pequena de arroz que estou acostumado a comer, ela não vai notar a diferença. Quando eu morava com ela, ela chegava no fim do dia e perguntava “ué, você não comeu a comida que deixei?” Então a técnica é tirar o arroz de um dos cantos da panela, até o fundo dela aparecer. Depois a panela deve permanecer fechada, mas com a colher de servir, que não estava lá quando cheguei, descuidadamente largada dentro da panela. Fingir que esqueci de lavar a louça e deixar pratos e talheres sujos (de “carne com molho”) dentro da pia também ajudam muito.
Não posso magoar muito a mamãe. Já passei a adolescência toda e parte da vida adulta fazendo isso. Não é algo que posso jurar conseguir, mas é algo que tento tanto quanto eu posso. Por um mundo com um arroz menos preto e branco.
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Eu até quis comprar aquela jaqueta. Era preta, cheia de estilo. Queria que desse com aquela pinta de motoqueiro chique de São Paulo, aqueles que geralmente não tem moto nenhuma, trabalham num escritório que faz qualquer coisa que não agrega valor ao mundo, frequentam bares da Vila Olímpia e tem uma namorada loira com quem fala o dia inteiro, mas não existe qualquer tipo de assimilação de informação de uma ou outra parte. Resumindo: a jaqueta tinha potencial para me inserir na sociedade de forma a parecer invisível. O problema era que a jaqueta só vinha em dois tamanhos: mangas sem mãos ou gay por colação no corpo e definição de cintura (a sutil diferença entre “dar uma pinta” e “dar uma de pintosa”). Pareceram suficientes para me sentir inserido à sociedade, mas jamais para parecer invisível, veja você.