Lixomania


Juntos chegaremos lá, fé no Brasil!
outubro 24, 2014, 11:00 am
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Eu nasci em 1979, mas minhas lembranças não têm referências à ditadura. Quando o Tancredo Neves morreu eu já tinha 5 anos de idade (mais para 6 do que para 5) mas também não lembro daquela comoção toda que houve no país (as que conheço por arquivos de TV, jornais e aulas de história). Eu soube que ele morreu, mas não tinha ideia do que significava um presidente prestes a assumir seu cargo após anos de ditadura (eu sequer sabia que vínhamos de uma ditadura… e nem O QUE ERA uma ditadura). Só perguntei para minha irmã (5 anos mais velha) por que as pessoas estavam tão incomodadas com aquilo e lembro que ela respondeu: “por que as pessoas acham que ele teria sido um bom presidente”. Teria mesmo? Sei lá, ninguém sabe. Mas hoje eu entendo os motivos do mito e o significado brutal que foi isto ter acontecido. Na época, o único mito que eu realmente entendia era o mito da dificuldade do povo da Caverna do Dragão em sair daquele universo paralelo. Isso sim me preocupava.

Já das eleições de 1986 para governador eu lembro um pouco mais. Eu tinha uma ideia de quem era o Maluf e sabia que existia algo a respeito do Suplicy. Não sabia quem era o Antônio Ermírio, mas era para ele que eu torcia. O Quércia foi quem venceu, dando à luz àquele período negro da história de São Paulo com ele e seu sucessor, o Fleury. Nossos senadores eleitos foram Fernando Henrique e Mario Covas, pelo PMDB… o PSDB ainda não existia, seria fundado dois anos depois. Mas a coisa mais legal que lembro destas eleições foram as pesquisas eleitorais que o SBT (acredito que ainda TVS) fazia nas ruas: eram feitas por bairro ou cidade e deixavam os entrevistados darem respostas independente dos candidatos que efetivamente concorriam. Ao final, um GC mostrava os resultados com as somas de cada candidato naquela região e, não raro, apareciam coisas como “Xuxa, tantos votos; Chacrinha, tantos outros”. Morri de pena quando Jesus ganhou apenas um voto. Perdi a fé na humanidade aquele dia.

Mas ainda não foram essas as primeiras eleições em que me senti envolvido. As primeiras foram, definitivamente, as eleições presidenciais de 1989.

Existia um clima de muitos candidatos fortes, todos tentando se firmar na tal nova política brasileira. Collor, Lula, Brisola, Maluf, Covas, Afif, SILVIO SANTOS, Enéas e, principalmente, o Marronzinho. O primeiro turno era divertido: não existe uma única pessoa da minha geração que não se pegue de vez em quando cantando mentalmente algum dos jingles do Afif (“junto chegaremos lá, fééééé no Brasil”… com direito a coreografia com as mãozinhas…). Não era esse clima de Vingador proibindo a galerinha de voltar para o parque de diversões. Não no começo… existiu um segundo turno entre Collor e Lula para lançar as bases do que mais tarde se tornaria o serviço de escrotização geral da nação com promessas de apocalipse zumbi para caso qualquer um dos lados ganhasse.

Na Escola de Playboyzisses e Costumes Nazistas, onde eu já estudava na época, organizaram uma simulação das eleições para os alunos. Quem venceu na escola foi o Afif. Eu mesmo votei no Afif. Por que? Hoje eu sei: eu estava inserido no meio de filhos da nata industrial e comercial de São Paulo, que ouviu seus pais dizerem que Afif era o cara, que repetiam isto à exaustão e, como meus pais estavam cagando para política, era esta a opinião que aos 11 anos eu deveria considerar por ser a única a que estava exposto. Ou talvez só porque eu sabia os jingles e a coreografiazinha com as mãos. O Afif venceu as eleições e se tornaria o primeiro presidente eleito democraticamente na Escola de Playboyzisses e Costumes Nazistas. Não o vi sentado à mesa da diretora da escola um único dia que fosse… na verdade a diretora continuou sendo exatamente a mesma de antes. As eleições foram uma fraude!

No segundo turno algo grande estava em jogo: me disseram que se o Lula-Vingador vencesse (vejam que boa parte das vestimentas do Vingador eram mesmo vermelhas), uma família pobre iria dividir minha casa com minha família. Seria como entrar mesmo naquele trenzinho do parque de diversões e sair em um mundo bizarro de onde forças do mal não te deixam sair nunca. Tipo Cuba e Venezuela. Eu fiquei tão doído com isto: imaginava uma criança fedida da favela dormindo na cama de cima (ou pior: na de baixo!) do beliche e pegando meus brinquedos sem me pedir. Eu era um pequeno burguês mesmo tendo um pai assalariado. E aí minha torcida foi toda para o Collor. O que não me impediu de, quando consegui diversos adesivos onde se lia “Fernando Collor”, com os famosos L’s em verde e amarelo, começar a recortá-los para rearranjar as letras e escrever coisas que tivessem estes mesmos L’s, como “alloprado”. Eu era um pequeno burguês, mas era da zoeira.

Collor venceu as eleições e, dali para frente, eleições ganhariam cada vez mais um ar de gravidade e polarização. Fui ficando adulto e entendendo do que aquilo tudo se tratava, também teve esse problema. E entendi que esta polarização entre o bem e o mal é burra e que ninguém está 100% em nenhum dos dois lados (mas isso nem todo mundo parece ter aprendido quando chegou à idade adulta). Fui tendo cada vez mais dificuldade de me sentir representado: quando passei a votar de fato, não foram raras as vezes em que anulei meu voto: fosse para mostrar discordância, fosse para demonstrar indiferença ou fosse para demonstrar descrença em como o sistema funciona na prática. Nas eleições deste domingo estou me sentindo ainda pior: continuo indeciso e não me sinto representado, mas entendo que não posso anular meu voto pois, votar na Dilma ou no Aécio me parece estar sendo conivente com coisas que realmente discordo e que não posso deixar acontecer. Vou ter que votar em alguém, mas eu vou me sentir mal pela minha escolha invariavelmente. É como pensar no domingo, não importa o que eu faça, vamos todos morrer. Depois que as votações forem encerradas e as apurações iniciadas, pretendo entrar em clima de tragédia grega: beber algo forte e resmungar para crianças na ruas as histórias nostálgicas do dia em que confeccionei adesivos para difamar o candidato que queria ver eleito (e que ele efetivamente foi eleito e depois roubou as economias de todo mundo). Dia que também pode ser citado como o terrível dia em que entrei no trenzinho do parque de diversões e nunca mais voltei.



Feliz dia dos professores
outubro 15, 2014, 4:11 pm
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Tava aqui tentando pensar em qual é a professora de que me lembro há mais tempo. Quando criança mudei bastante de escola e, consequentemente, de professores. Para piorar, sou o rei do esquecimento geral de todas as coisas (é bem comum na minha vida alguém me contar “daquele dia super legal em que você levou todos nós para tal lugar e que você fez aquela coisa super inusitada e engraçada, foi muito divertido” e eu não ter a menor noção do que as pessoas estão falando – mesmo sendo situações de plena sobriedade). Ainda assim consegui definir uma como sendo a primeira que lembrar bem.

Para a minha infelicidade, a professora mais antiga cujo rosto consegui lembrar (só o rosto, de nomes eu já desisti… não lembro nem do nome dos professores que me deram aulas no infame curso de comissários de 2007) foi minha professora de Português da 3a série. “Infelizmente” porque este foi um ano de grandes traumas: foi quando fui parar na Escola de Hábitos Nazistas, foi quando passei a ser um péssimo aluno, foi quando me senti extremamente descriminado por não ter tanto dinheiro quanto um monte de gente pela primeira vez, e, enfim: quando todos os meus traumas de infância começaram a formar meus gastos potenciais com terapia. Ela tinha uma cara muito carrancuda, muito mesmo. Gosto de pensar nela como “a cara do Mun-Rá”, mas isto seria uma sacanagem tremenda com outras várias professoras que tive em anos seguintes, uma vez que várias fizeram o que puderam para parecer o Mun-Rá (uma delas parecia o Mun-Rá, mas tinha a voz do Mickey Mouse… esta foi só no 2o colegial, dava aulas de redação).

A professora de português Mun-Rá I (leia o “I” como “primeira”) foi a autora da minha primeira nota vermelha na vida. Acho que foi um 3,5 em um ditado. Cheguei em casa chorando para minha mãe, com muita vergonha e achando que minha vida estava acabada para sempre. Mamãe foi extremamente compreensiva então talvez não tenha sido o 3,5 em si o que abriu a porta para as diversas notas vermelhas que vieram ao longo da vida, mas sim a compreensão inesperada que fez o episódio parecer menos horrível. Claro que mamãe não compreendeu tão bem quando menos de um mês depois eu tinha outra nota vermelha para mostrá-la. Como mamãe está por aí até hoje, eu prefiro culpar a dona Mun-Rá I por todos os meus fracassos escolares: do ditado da 3a série (o paciente zero) ao meu desempenho pífio e vergonhoso na Fuvest. Este 3,5 mudou minha vida e destruiu o meu caráter. Tudo culpa da Mun-Rá I. Claro. Jamais pelo fato de que, por exemplo, eu não acentuava nenhuma palavra que escrevia até o 1o colegial.

Fica aqui a minha pequena homenagem (trágica) à Mun-Rá I, às Mun-Rás subsequentes, às não Mun-Rás que me ensinaram coisas tão inúteis mas que estão na minha cabeça gravadas até hoje. Aos professores que me ensinaram coisas de maneiras que realmente acrescentaram à minha vida e me fizeram pensar como penso hoje, como os de história e sociologia que tive no colegial. A professores que ensinaram coisas que não tinham nenhuma utilidade na minha vida mas que adorei aprender (como semiótica e economia na faculdade, como meteorologia e princípios de aerodinâmica no curso de comissários). Aos vários professores de música que passaram na minha vida. E para aqueles que nunca nem foram meus professores, mas que são meus amigos e se dedicam a esta profissão tão legal, tão importante e que eu invejo um bocado quem tem a capacidade de exercê-la (sempre declarei a todos que desisti de ser musico porque me considero incapaz de organizar uma aula sobre qualquer coisa).



As brigas que perdi
setembro 23, 2014, 9:30 pm
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Eu me esforço. Eu me esforço tanto! Me esforço um tanto para sair dessa vida sem estar brigado com ninguém. Mas como é difícil. A culpa é das pessoas, claro, mas a culpa não é só das pessoas. Ou o que acontece é que eu também sou uma pessoa (supõe-se que eu seja: nem toda as coisas que com tanta criatividade criei para não fazer parte desse grupo podem me garantir essa exclusão).

Um monte de gente fez bobagem comigo mas, no geral, eu tenho coração bom e memória ruim. Uma hora eu lembro que já estive chateado com o fulano e que já briguei com a fulana, mas logo eu esqueço mesmo o que aconteceu e fica aquela raivinha tão fútil e despropositada que eu deixo pra lá. Nego vai lá, mata minha família, rouba meu dinheiro, mata meu gado e salga minhas terras. E faz tudo isso usando Crocs. “Por que você não gosta de fulano, Klein?”. Eu sei lá: eu lembro que não gosto, não lembro mais o que ou como aconteceu. Eu viro o lesado da história que não gosta das pessoas de graça, então convencionei dizer que “acho que meu santo não bate com o dele, não é nada de mais”.

Do outro lado eu fiz as minhas bobagens com as pessoas. Coisa que eu faço para pertencer àquele grupo chamado pessoas (mesmo achando má idéia, como já expliquei). Eu fico morrendo de culpa, né? Deito pra dormir de noite e fico mascando as pontas dos meus dedos em posição fetal por achar que mereço ir para o inferno. “Por que você fez esta bobagem com a fulana, Klein?” Por que eu sou uma pessoa, eu não penso antes de fazer bobagem, só depois. Daí a gente corre pra apagar o incêndio: pede desculpa, perdão, manda cartão bonito com frase inspiradora, se oferece como escravo sexual por uma semana sem custos e todas essas coisas que a gente aprende a fazer e coloca naquele protocolo de como agir em caso de arrependimento. São sempre os piores: eu lembro tão mais dos motivos para alguém ficar bravo comigo. Passam-se anos, séculos, décadas, encarnações e big bangs e eu ainda to pensando “nossa, não devia ter dito aquilo”.

Acho incrível que aquela tal de igreja católica e sua cultura de culpa eterna nunca me convenceram: eu tenho o perfil exato para fazer parte deste tipo de rebanho (ainda assim eu prefiri me unir ao grupo das pessoas… péssima escolha…)



Carma ruim.
junho 25, 2014, 2:21 pm
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Por outro lado, dando sequência ao meu post anterior, teve aquela lendária vez que eu quebrei o pé saindo do trabalho. Torci, não quebrei. Mas torci o suficiente para que, no dia seguinte, eu não conseguisse nem encostar meu pé no chão. Aí liguei para a então chefa e disse que precisava ir ao hospital. Ok. No hospital, botaram a tala, engessaram e me deram uma semana de gancho.

Vejam que, na época, eu morava nas roças de Carapicuíba. Morava com meu pai e minha mãe: ambos então integrantes das forças de trabalho brasileiras em funções diferentes de “minhas babás”. Ir para a cidade grande era de carro ou de carro. Ou você pegava um ônibus até a estrada, outro ônibus até a cidade e aí mais um ônibus até onde eu trabalhava (e isso não é uma piada: a logística era de três ônibus). Some aí fazer isso de muletas, com uma perna só. Depois faz tudo de novo para voltar. Ou, ainda, pode-se pagar um bilhão de reais em taxi intermunicipal, claro. Liguei para a então chefa e disse isso aí, que tinha uma tala de uma semana em meu pé esquerdo, aquele que a gente deve usar para regular a embreagem do carro e que, em algum lugar do manual do proprietário, deve especificar que não se faz isso com uma tala de gesso na perna e calcanhar. E que, por causa disso tudo, eu achava que não conseguiria ir para o trabalho por uma semana.

Eu nem vinha conduzindo nenhum projeto ou fazendo falta por aqueles tempos, eu estava com depressão e a nossa relação não era das melhores… ela perguntou se não tinha como eu dar um jeito, eu expliquei que não (como explicado anteriormente, eu não tinha babás à disposição). E ela disse aquilo lá que eu nunca vou esquecer:

- Acho que você tinha que dar um jeito… entendo como uma questão de postura.

(Não lembro se foi exatamente assim… mas eu lembro bem disso aí: ela questionou a minha postura profissional e essa palavra, “postura”, ela usou).

Fiquei muito puto. Muito mesmo. Encurtando a história, eu respondi firmemente que voltaria dali a uma semana e desliguei quase na cara dela. Na semana seguinte, a primeira coisa que fiz foi dizer que queria falar com ela. Quando ela sentou para falar comigo, dei o atestado médico na mão dela, disse que nunca em nenhum lugar que já tinha trabalhado antes eu tinha sido tão ofendido por alguém e que queria minha demissão. Ela agradeceu a minha sinceridade (???) e fomos cada um para um canto. Eu poderia dizer que ela fez cara de bunda, mas isso eu acho que ela já tinha, não tenho certeza. Não rolou aviso prévio, evidentemente.

Sei lá se isso marcou tanto a vida dela quanto marcou a minha. Marcou muito. Nunca tinha saído de um emprego brigado com alguém e acho que não imaginava isso acontecendo na minha vida. Eu ainda acho que estava com a razão: nada do que eu tivesse feito (que basicamente foi não corresponder o que ela esperava de mim na época como profissional) justificava ela ter falado assim comigo e tratado a questão desse jeito. Eu apenas me defendi e ainda fui legal de não ter procurado um jeito de por isso na justiça… ainda com esta convicção de que eu não estava errado, eu me sinto péssimo por carregar isso até hoje, no meio das duas ou três coisas ruins que fiz ou me aconteceram e que parecem me incomodar para sempre. Sei lá se pra ela isso foi tão pesado quanto foi para mim. Espero que não: eu não desejo nada de bom para ela, mas também não ganho nada desejando algo de ruim para ela. Como disse, foi cada um para o seu canto.



Pareidolia
junho 11, 2014, 12:43 pm
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Quem sabia das coisas era a Eulália. Chamavam ela de Lalá também, se eu não estiver enganado. Foi uma das primeiras chefes que eu tive na vida e uma das poucas representantes do anti coxinhismo corporativo com quem cruzei na minha vida profissional… quando eu trabalhei naquela instituição financeira que não era a vermelha, era a azul…

Me contaram que a Gisele Bündschen faz comerciais para a C&A até hoje por gratidão. Não sei se é verdade, mas já ouvi esta história algumas vezes. Gratidão porque a C&A teria sido a primeira marca a investir nela como modelo, quando ela ainda achava que era magrela porque passava fome, e não porque porque simplesmente era uma pessoa magrela. Aí ela ficou famosa, rica, foi morar em Nova York, namorou o Leonardo DiCaprio e resolveram que, para ela, magrela significava gostosa (não que eu não ache, meu ponto aqui não é este!). Então, em gratidão à C&A, que a tornou rica e gostosa, hoje ela trabalha para os caras por um cachê reduzido.

Contei essa historinha toda para fazer a seguinte pergunta: para que caras?

Não sei se o cara que deu a oportunidade para ela trabalha na C&A até hoje. Vamos assumir que não, porque isso é muito improvável. E eu entenderia uma gratidão a um cara que trabalha lá e deu a oportunidade a ela mas… a uma empresa?

E aí, o que a Eulália me disse uma vez, não lembro por que motivo exatamente mas com certeza para aliviar o meu remorso de estar fazendo algo que “prejudicaria” o sr. dono da grande corporação internacional de cartões de crédito com cor azul, a frase: “empresa não tem coração, tem CNPJ”.

É verdade. Em uma empresa muito grande é assim. Não é como trabalhar na padoca do seu Zé… porque o seu Zé é gente boa, te deixa levar uma pizza congelada para casa de vez em quando. No outro caso, o dessas empresas estilo grande corporação internacional de cartões de crédito com cor azul, é pura pareidolia da nossa parte. Não é real. E eu sigo lembrando da Lalá há todos esses 14 anos que se passaram.



O almoço e a luta de classes.
maio 12, 2014, 11:15 am
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se eu tivesse um Ômega, seria este, neste estado

Falar que eu tive uma infância pobre seria um absurdo, mas falar que eu era desproporcionalmente mais pobre do que as outras crianças que estudavam comigo não é exagero nenhum. Isso porque mamãe economizou em brinquedos, mas não em escola cara. E escola cara é pra quem tem dinheiro para pagar escola cara além dos brinquedos, né? Daí que aos 9 anos de idade eu estava envolvido com essas crianças filhas de donos de rede de varejo, donos de indústria, donos da capa da revista Caras, donos do planeta Terra (a adjacências).

Apesar de estar fora do meu habitat, eu consegui fazer amiguinhos na época. Apesar dos Comandos em Ação, Transformers, He-Mans e essa galera em geral se aglomerarem mais em volta deles do que de mim.

Apesar desta opção de alocação de verbas, uma coisa eu tenho que reconhecer: até minha mãe começar a trabalhar, comer na minha casa era um espetáculo. Pratos diferentes todos os dias! Tudo delicioso. Minha mãe era uma remanescente da escola casa-de-vovó-aos-domingos. Fartura, abundância, grandes temperos, grandes ingredientes, grandes qualidades. Nada era ordinário na mesa do almoço e uma parte significativa dos meus caprichos e frescuras eram atendidos.

Bem, tudo isto para contar que, em algum momento do ano de 1989 chegou aquele momento em que algum dos meus amiguinhos, seus Comandos em Ação, seus Transformers e seus He-Mans finalmente fizeram o convite: venha dormir em casa para a gente brincar! Fiquei deslumbrado, claro.

Imagina só: casa gigante com piscina!
* Me dei bem! *

Video games importados que custavam um zilhão de cruzados novos!
* Fernando Collor: abra já os portos brasileiros! *

Pais fumando charutos cubanos e contando notas de 100 dólares enquanto as crianças brincam no tapete da sala!
* A riqueza emanando de todos os orifícios do meu corpo! *

E, claro: comidas novas, incríveis, com cores e cheiros originais que fazem seu corpo estremecer, feitas por chefs de cozinha internacional: cada um com o seu Personal Alex Atala aguardando novas ordens enquanto você come. Mas isso não foi bem assim. Chegada a esperada hora do almoço, uma mesa com arroz, feijão, bife e ovo. Achou pouco? Tem alface ali, ó! Sirva-se!

Vejam, eu não quero ser esnobe e está longe de mim desprezar arroz, feijão, bife e ovo (hoje é o que eu mais como com muito gosto sim!). Considerem o seguinte: primeiro que estou falando dos meus 9 anos de idade. Segundo que estou falando de marxismo, luta de classes e a opressão da classe burguesa sobre a classe média assalariada (eu no segundo grupo). A minha decepção foi tão grande com aquilo… como esse povo pode ter dinheiro para comprar um Ômega zero quilômetros e comer essas coisinhas chinfrins enquanto eu, que ando de Golzinho batedeira, invadido pelo Movimento das Baratas Sem Teto, todos os dias almoço, no mínimo, um bom prato de estrogonofe?

Talvez essa devesse ter sido uma importante lição para o jovem Klein. De que talvez eu não devesse ter me sentido tão oprimido e intimidado por estar no meio de gente com tanto dinheiro? Essa eu não aprendi não. De que dinheiro não compra tudo na vida? Não compra mesmo estrogonofe, ao que tudo indicava, mas isso não parece uma grande lição de vida. Eu me resumo a dizer que tirei o melhor que a situação podia me oferecer: pelo menos eu nadei em uma piscina no fim de semana.



O vovô em terras paulistas
abril 3, 2014, 6:45 pm
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vovô e vovó

Essa noite eu sonhei com o vovô.

Meus sonhos não têm enredo. Ou eles têm e eu não consigo lembrar. O que fica quando eu abro os olhos são sempre momentos curtos, umas poucas imagens e poucas coisas ditas. Neste eu via a minha família, como se os estivesse encontrando para algum evento (como o que terá logo mais, 70 anos de papai, talvez isto sido um dos motivadores o sonho) e, no meio, surpreendentemente estava o vovô. Nem sei contar quando o vi pela última vez… eu chutaria que 1994, talvez menos…

… e no sonho eu dizia: “VOVÔ!”

Ele respondia algo que eu não consigo lembrar. Se a última vez que eu o vi foi em 94, então a última vez que ele respondeu deve ter sido em 1991 ou até menos. Será que a voz do vovô no meu sonho era a mesma do vovô de 1991? Eu não sei, não lembro da voz do vovô muito bem.

No meu sonho ele tinha olhos azuis. Ele nunca teve olhos azuis. Os cabelinhos continuavam bem pretinhos e sem falhas como no dia que ele morreu com 84 anos de idade. O nariz largo como o que ele tinha, magrinho como ele era, com os óculos de armação preta e grossa que ele sempre usava. Um vovô fofinho, eu tive um desses. A última coisa que eu lembro do sonho foi de pensar algo como “que bom que ele está respondendo, ele está muito melhor!”. Aí eu acordei no meio da noite, como acordo todas as noites. O que não foi como todas as noites foi essa sensação volátil que mistura a alegria de ter visto o vovô com a tristeza de ter sido só um sonho.

Convivi tão pouco com o vovô e ele ter ido embora quando eu estava apenas entrando na minha adolescência é só um dos fatores. Vocês sabem que meus pais são gaúchos e vieram para São Paulo antes mesmo de eu nascer e que avós e tios são vivências específicas de infância e férias escolares. A saudade que sinto do vovô é quase teórica. Eu lembro do tamanho do carinho que ele tinha pela gente; lembro dos churrascos no galpão da sua casa, sempre naquela parte entre a construção maior onde a vovó tirava leite das vacas e a garagem onde o seu opala clássico, com santinhos presos por imãs no porta luvas e com o câmbio na coluna… e claro, da sua tradicional dose de cachaça (aquela mesma que ele dava para a minha irmã, numa fase em que era permitido dar cachaça para criança e achar graça)… tenho essas e outras lembranças, mas não sei descrever a personalidade do vovô. Criança não sabe descrever personalidades, não é uma das funções das crianças. Por isso que digo que é uma saudade teórica: ficam as boas lembranças misturadas à incerteza que a incapacidade de julgar estas lembranças carregam; uma saudade não só do que foi vivido, mas daquele mais que poderia ter sido também. Como crianças que perdem os pais cedo.

Tadinho. O vovô morreu de susto. Deve ter sido de saudade também, mas com certeza o que mudou ele foi o susto. O susto e o trauma de ter que conviver consigo com uma história que ninguém imagina que irá viver um dia. Nem eu.




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